Cautela freia ciclo de abundância em startups, mas oportunidade permanece alta

Novo ciclo macroeconômico exigirá balanceamento entre lucratividade e crescimento e maior eficiência nas operações

O ecossistema de inovação do país passou por um ciclo de abundância inédito, conforme aponta o relatório Brazil Digital Report 2022 lançado recentemente pela McKinsey na conferência Brazil at Silicon Valley.

Impulsionado por 83% dos lares brasileiros conectados, consumo digital acelerado pela pandemia e uma série de incentivos no ambiente regulatório, o fluxo de investimento dos fundos de venture capital aumentou 19 vezes entre 2016 e 2021. Só no ano passado investiu-se o equivalente à soma de todos os anos anteriores juntos, dobrando o número de negócios e com presença massiva do capital internacional, além do nacional.

Este ciclo de abundância teve algumas consequências diretas. A primeira delas foi o crescimento vertiginoso na quantidade de unicórnios, que setuplicou desde 2018 – pulou de 4 para 27 em 2021, consolidando o Brasil como um grande ninho de criação desta espécie rara de empresa que alcança o valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

O segundo efeito foi o encurtamento nos ciclos das startups. Até 2019, uma startup demorava em média cinco anos para atingir o patamar de unicórnio – em 2021, algumas empresas conquistaram esse status em apenas 12 meses. Anos atrás, demorava-se 40 meses para atingir o primeiro milhão de clientes – em 2021, vimos empresas atingirem o primeiro milhão de clientes em seis meses. O intervalo entre risk round (rodada inicial para provar produto) e growth round (quando a tese está comprovada e objetivo é escalar) também diminuiu, de 18 para 3 meses.

Para entregarem ciclos tão acelerados de crescimento, as startups tiveram que, muitas vezes, abrir mão de lucratividade. Investidores ávidos por velocidade também estavam dispostos a seguir aumentando o cheque, mesmo testemunhando operações com alto custo de aquisição e pouco retorno econômico, acreditando em um futuro promissor.

O futuro promissor de um empreendedor também foi a narrativa que mudou a mentalidade de toda uma geração. Para quem nasceu nos anos 80, empreender era coisa de poucos loucos criativos. Quem nasceu nos anos 90 já começou a testemunhar casos de bilionários nascendo do dia para a noite, por conta de alguma ideia desenvolvida em uma garagem ou alojamento de faculdade. Mas para os nascidos nos anos 2000, empreender deixou de ser loucura e passou a ser uma alternativa viável de carreira. Em 2021, a McKinsey conduziu uma pesquisa com estudantes de engenharia: 87% responderam que gostariam de trabalhar em uma startup, 80% têm vontade de empreender e 19% já montaram seu próprio negócio.

Mas 2022 traz um cenário bem diferente. No Brasil, a taxa Selic saltou de 2% em janeiro de 2021 para 12,75%, com uma inflação que é, atualmente, a terceira maior do mundo segundo a OCDE. Lá fora, tivemos a redução do crescimento esperado do PIB global, de 3,5 para 2,8%, e uma grande correção para baixo no valor de ações de empresas de tecnologia, com quedas substanciais na NASDAQ e na S&P.

Para entender o efeito deste novo panorama macroeconômico no ecossistema de inovação do país, fizemos uma rodada de conversas com fundos de venture capital e fundadores de startups, e três mensagens principais emergiram.

A primeira: valuations vão diminuir – Já começamos a observar valuations mais tímidos em ciclos de growth, e devemos ver este efeito chegar aos poucos em rodadas de early stage. Observaremos, também, empresas fechando rodadas com o mesmo valuation de antes – “flat round is the new upper round”. A certeza de novas rodadas com valuations multiplicados já não existe mais. Mas não, a torneira não fechou. O capital segue existindo, apenas vemos um investidor mais cauteloso, colocando seu capital em teses comprovadas e empreendedores mais experientes.

A segunda: com menos fluxo de capital, a retenção de talentos também muda. Se antes a promessa de retorno rápido e salário competitivo eram suficientes para trazer os melhores talentos do mercado, agora será preciso repensar a proposta de valor. Soma-se a isso o aumento da competição por talentos de tecnologia e a lacuna gigantesca entre oferta e procura desses talentos – se o Brasil seguir formando engenheiros, estatísticos, designers e afins na mesma velocidade de antes e a demanda por este perfil seguir aumentando a galope, estimamos um buraco de 1 milhão de vagas não preenchidas até 2030. Talento pode ser “O” grande gargalo para o crescimento de startups.

E a terceira: o caminho para a lucratividade deve acelerar. Anos atrás, era comum encontrar startups crescendo 50% ou até 100% ao ano, mas sem lucro, demorando cinco ou oito anos para conseguirem operar no azul. Isso dificilmente deve acontecer agora, pois os investidores estão exigindo resultados mais rápidos. Talvez o melhor caminho neste momento seja crescer menos, aliando maior eficiência de operação a um custo menor de aquisição de clientes.

Apesar de toda a cautela que o momento exige, o Brasil continua sendo um lugar extremamente favorável para empreender, e há muitas oportunidades a serem exploradas.

Temos uma série de problemas complexos, como o crescimento de 9,5% nas emissões brasileiras de gases do efeito estufa e 45% da população sem rede de esgoto. Há também muitas indústrias concentradas – 72% do mercado bancário está concentrado em quatro grandes grupos; na área de e-commerce, cinco grandes varejistas dominam três quartos do mercado. Há também muito o que melhorar na qualidade dos serviços em geral – o site Reclame Aqui recebe, em média, 45 mil reclamações por dia. Esses elementos fazem do nosso país um terreno perfeito para disrupções.

Além disso, temos muito o que amadurecer digitalmente em nossa economia. As projeções indicam que, até 2024, o comércio eletrônico deve crescer 55%; em 2026, 185 milhões de brasileiros estarão diariamente conectados, e mais da metade da população usará um banco digital. Há muito trabalho a ser feito para atender a essa demanda.

O universo de venture capital no Brasil deve seguir como um dos grandes motores da nossa economia. Apesar de os investidores externos estarem mais cautelosos, o interesse no país segue intenso e o capital local está cada vez mais forte e maduro. Em um momento de reequilíbrio da economia global, o Brasil pode assumir um papel ainda mais importante como ninho de unicórnios.

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