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A lição de produtividade das minas australianas

Wieland Gurlit e Henrique Ceotto

A localização geográfica da Austrália e o tipo de recursos naturais na base de sua economia tornam o país uma referência natural para o Brasil. No setor mineral, não é diferente: vem do exemplo australiano, um dos principais competidores do Brasil nesse segmento, a chave para elevar em até 60% a produtividade, e, por consequência, os lucros da mineração nacional.

Ao longo das últimas duas décadas a indústria mineral passou por grande expansão de suas receitas e margens, graças à demanda criada pelo rápido crescimento da economia chinesa. Os produtos do segmento mudaram de status: de simples commodities, passaram a ser considerados verdadeiros ativos financeiros.

A partir de 2014, porém, a desaceleração da China pesou negativamente no desempenho do setor. As margens da indústria mineradora foram comprimidas diante da retração das receitas provocada pela queda nos preços das commodities minerais.

Além disso, a produtividade relativa do setor mineral caiu 33% entre 2004 e 2014. A estimativa já desconta fatores geológicos, como queda da qualidade do minério e aprofundamento das minas, e econômicos, como taxa de câmbio e inflação. Essa queda se deve a três grandes fatores: perda da eficiência da mão-de-obra, maior necessidade de investimento por tonelada produzida e aumento no custo operacional.

Nenhuma região, das Américas do Norte e Latina à Austrália e África Subsaariana, ou tipo de mineração, de minério de ferro e cobre a carvão e ouro, escapou dos efeitos desse cenário. No Brasil, entre 2008 e 2015, descontando-se os efeitos geológicos e econômicos, a produtividade mineral caiu quase 50%.

Ainda que com menor intensidade (23%), a produtividade mineral ajustada australiana também caiu entre 2008 e 2013. Mas o país conseguiu equacionar o problema e, desde 2014, vê a produtividade de suas minas voltar a crescer a 5% ao ano, além de aumentar em 30% sua produção.

O quadro é resultado da adoção de programas de recuperação e transformação: agressiva negociação com fornecedores, racionalização do portfólio de CAPEX e eliminação das ineficiências operacionais. As empresas do setor de mineração australianas reduziram em 24% o número de trabalhadores por tonelada minerada e em 11% seus investimentos, ao mesmo tempo em que conseguiram manter estáveis seus custos operacionais entre 2013 e 2015. As mineradoras brasileiras também têm potencial para reativar e reenegizar o segmento, valendo-se do seguinte tripé: programas que promovam um conjunto de transformações, aplicação de práticas de manufatura na mineração e utilização de solução digitais e big data.

No âmbito de seus programas de transformação, os australianos agora seguem na busca por excelência operacional, adaptando práticas de manufatura lean à atividade mineradora, o que permite alta aderência a padrões de trabalho simples e a contínua eliminação de desperdícios. Isso apenas é possível graças ao verdadeiro engajamento das empresas, baseado na capacitação de operadores e na implantação de uma cultura de melhoria dos padrões de atuação.

Tais ações devem ser aliadas ao uso das mais avançadas tecnologias digitais. Essas ferramentas funcionam como um acelerador da transformação e também são fundamentais para que, em torno de uma plataforma digital integrada, seja possível redesenhar as operações de forma a torná-las mais eficientes.

A análise avançada de grandes volumes de dados (advanced analytics aplicada a big data) permite que se encontrem caminhos para reduzir interfaces e erros operacionais. Abre espaço, ainda, para descobertas surpreendentes, como o caso de uma mina de ouro africana: analisando um dado medido, mas anteriormente não monitorado – a concentração de oxigênio na etapa de lixiviação (técnica usada para extrair o minério) –, foi possível elevar o índice de recuperação de ouro em até 4%.

Em mineração, melhorias típicas incluem modelagem geológica estocástica, cadeia de suprimento de mina a porto, manutenção preditiva, otimização de rendimento e equipamentos automatizados – fatores que geram imensos volumes de dados que, se analisados de forma mais eficiente, podem se traduzir em ganhos de produtividade e redução de custos.

O objetivo da transformação é provocar impacto o mais rapidamente possível, mas também é preciso garantir a sustentabilidade de longo prazo. Sendo assim, cinco princípios formam a base que suporta a excepcional jornada iniciada pelas mineradoras australianas há três anos: a definição de uma aspiração bastante ambiciosa, melhorias identificadas e implantadas pela linha de frente, forte gestão com foco em desempenho e cadência semanais, uma engrenagem de gestão de mudança e um time de liderança comprometido.

A aspiração comum garante que todas as fórmulas de melhoria estejam direcionadas para obter maior impacto. A liderança pela linha de frente garante que a organização, e não apenas alguns indivíduos, sejam os donos da transformação, garantindo a sustentabilidade dela. A gestão em ritmo semanal voltada ao desempenho é imprescindível para assegurar que a equipe central de gestão tenha total visibilidade do que acontece na linha de frente e possa intervir para remover empecilhos, garantir que decisões críticas sejam tomadas e priorizar a alocação de recursos.

Já a gestão de mudança trabalhará na sustentabilidade de longo prazo dos ganhos obtidos pela transformação. Ela trabalha na comunicação extensiva da transformação e história da mudança, no comportamento dos líderes para que estes sirvam como exemplo para a organização, na capacitação da organização em competências críticas, e na criação de mecanismos de incentivos, ações formais para impulsionar a adoção de novas formas de trabalho e novos meios de reconhecimento – financeiros e não-financeiros.

Por fim, o comprometimento do time de liderança é fundamental para garantir o alinhamento da organização e rapidamente tomar decisões difíceis sobre o negócio, garantindo que o momento da transformação se mantenha mesmo em situações turbulentas.

O setor mineral brasileiro precisa imediatamente seguir o exemplo australiano, de modo a retomar sua posição de liderança nesse mercado, o que não apenas gera valor para empregados e acionistas, mas também atrai investimentos para o país.

*Wieland Gurlit é sócio sênior e líder da pratica de metais e mineração na América Latina e Henrique Ceotto é sócio associado com foco em mineração

**Texto originalmente publicado no jornal Valor Econômico