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Paradoxo de Davos: Economia global faz festa; Brasil fica fora

Por Nicola Calicchio

Fazia um frio enorme em Davos. Mas Davos foi uma festa.

O clima no Fórum Econômico Mundial de 2018 era de comemoração. Em 2018 e 2019, a economia mundial deve crescer 3,9% ao ano — e a projeção do FMI está subindo. Os cortes tributários nos EUA fizeram várias multinacionais anunciar investimentos bilionários, e ninguém mais fala em quebra na China.

Mas não abra o champanhe ainda: tem mais.

A revolução tecnológica tem aumentado a produtividade numa velocidade jamais vista. No século passado, os carros levaram muitas décadas para dominar as cidades. De quanto tempo a inteligência artificial precisará?

Dado o clima de euforia, a pergunta que rondava a delegação brasileira — possivelmente a maior que já esteve lá, mas infelizmente ainda pequena para um país do nosso tamanho — era esta: será que vamos perder esta festa?

Infelizmente, ainda somos muito desconectados do resto do mundo. Nossa economia é muito fechada, com exportações e importações representando uma fração bastante pequena de toda a riqueza que produzimos. Nossas exportações somam 13% do PIB, contra 46% da Coreia do Sul ou 30% do Chile, para citar dois casos exemplares de desenvolvimento. Importações têm números parecidos.

No seu interessantíssimo livro Obrigado pelo Atraso, espécie de guia para um mundo em aceleração exponencial, o jornalista do The New York Times, Thomas Friedman, escreve que “historicamente, o principal fator a promover mudança social é o contato com estranhos que têm habilidades novas e desconhecidas”.

Isso vale para pessoas — o impacto positivo de bons professores ou de colegas de trabalho brilhantes, por exemplo — e para países. A diversidade gera soluções muito melhores.

Quando nos recusamos a participar das cadeias globais de produção e do jogo competitivo internacional, fechando-nos dentro de nossas fronteiras, destruímos essa possibilidade de evoluir em produtividade e em tudo que ela traz de bom, como renda, bem-estar e civilidade.

Para piorar, o protecionismo não é nosso único problema. Um mundo em intensa aceleração é um mundo que exige mais da educação. Não basta formar para uma determinada carreira: é preciso preparar nossas crianças para profissões que ainda nem existem — um imenso desafio.

Mas como vamos fazer isso se, no Brasil, somos incapazes de torná-las capazes do mínimo, como interpretar um artigo de jornal ou fazer uma regra de três?

Em Davos, falou-se muito em educar para a criatividade e na importância do conhecimento de programação. Quantas escolas públicas no Brasil estão entregando isso aos seus alunos? A proficiência em matemática do estudante brasileiro é uma tragédia. O Pisa mostra que quase 90% dos brasileiros de 15 anos não sabem ler um gráfico simples. Quão iludidos precisamos estar para acharmos que eles vão sair por aí programando em Java da noite para o dia nessas condições?

Como se preparar para vencer numa era de mudanças contínuas? Esta é a pergunta que ocupa os melhores gestores do Brasil, e que será o tema do Fórum McKinsey de 2018. Diversos setores terão anos especialmente intensos e desafiadores adiante, do bancário ao automobilístico, do varejo ao entretenimento. Todos os serviços públicos serão dramaticamente transformados.

Mas, para o sucesso das empresas brasileiras, é fundamental que nossos gestores de políticas públicas ajudem a preparar o país para competir num mundo acelerado. A alternativa é condenar o Brasil a ser um eterno país de renda média, incapaz de ascender ao primeiro escalão da economia global.

Pior do que perder a festa é perder o trem da história.

*Nicola Calicchio é sócio sênior da McKinsey em São Paulo

**Texto originalmente publicado no Brazil Journal